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27 de novembro de 2015

A Cidade e as Serras - Eça de Queiroz (e por que todos nós deveríamos lê-lo)

Tudo bem, vocês já sabem que eu estou em ano de vestibular e por isso tive que ler vários livros da literatura obrigatória. Dentre eles, o último que terminei de ler foi A Cidade e as Serras, do Eça de Queiroz, grande representante do Realismo Português - com certeza vocês ao menos já ouviram falar em O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro.
De início não fiquei muito animada com o livro - Viagens na Minha Terra quase me fez cometer suicídio. Mas depois de ler algumas dezenas de páginas, fiquei bem animada com a premissa e a linguagem do livro!



Em A Cidade e as Serras conhecemos a história de Jacinto por meio da narração de seu amigo José Fernandes, isso lá no fim do século XIX. Jacinto, descendente de portugueses e natural de Paris, vive em meio a civilização em sua mansão na Champs Elisées, rodeado de invenções revolucionárias as quais o protagonista não poderia viver sem. A aura frenética da cidade, a ostentação em sua biblioteca com um número de volumes que ultrapassa os milhares e tudo o que a tecnologia pode proporcionar parecem ser a base da vida de Jacinto.
Zé Fernandes, por sua vez, é português e admirador convicto da vida simples do campo. Os dois se conheceram na faculdade e, depois de Zé voltar para Portugal, resolve passar algum tempo de férias com seu amigo em Paris. Mas, para sua surpresa, encontra um Jacinto sem o brilho nos olhos, de certo carrancudo, desanimado e com ares depressivos. 
Toda a primeira parte da história gira em torno da civilização a qual molda a vida de Jacinto e o quanto a vida lotada de tecnologia, mais informações do que ele pode realmente aproveitar e relacionamentos superficiais pode soar glamourosa para quem olha de longe, mas apenas fez mal para a vida do protagonista.
Coincidentemente, uma propriedade de Jacinto em Tormes, Portugal, desaba e o mesmo organiza reformas no local e ruma para lá junto com o amigo, sem contar todos os seus preciosos telégrafos, banheiras e garrafas de água mineral, que ele manda para a pequena cidade do interior de Portugal também.
De início, Jacinto se desespera ao descobrir que a reforma ainda não fora concluída e que todo o seu carregamento de Paris também não chegara até Tormes. Porém, as estrelas avistadas da janela o deixam estupefato. 
Aos poucos, Jacinto passa a reconhecer as belezas e a tranquilidade da Serra, longe da civilização e de seus aparatos, muitas vezes, inúteis e responsáveis por causar o famoso efeito blasé em todos nós. 
Todos nós, sim, porque A Cidade e as Serras não poderia ser mais atual.
O efeito blasé de George Simmel faz de nós indiferentes, apáticos e reduz boa parte de nossa humanidade aos movimentos robóticos, tudo isso devido ao excesso de informação e tecnologia os quais rodeiam nossas vidas 24 horas por dia. 
Eça de Queiroz trabalha muito bem a faceta urbana do mundo, que reverencia a tecnologia a todo custo mas é incapaz de admirar um pôr-do-Sol sem toda a poluição que, ironicamente, deixa o céu com cores lindas mas, ao mesmo tempo, destrói a beleza natural do fim do dia. Essas grandes cidades que, correndo contra o tempo, se esquecem das flores que colorem as ruas durante a Primavera, e até mesmo as confundem com sujeira.
Enfim, Jacinto consegue se recuperar e equilibra feitos importantes da tecnologia, que melhoram nossas vidas e até facilitam as mesmas, com a paz e a tranquilidade do interior. A instalação de telefones nas casas, por exemplo, é algo que encurta as distâncias entre Jacinto e seus amigos, mas nem mesmo ele seria louco de distribuir maquinários para apertar espartilhos nas casas interior a fora.
Por que, então, nós não poderíamos nos dispor a fazer o mesmo? Tirar os olhos do celular para ver como o dia está lindo sem nuvens? Ou procurar por estrelas no céu de madrugada? E também, por que não aliar a tecnologia à observação e usar um aplicativo de identificação de estrelas para deixar tudo mais divertido?
Sempre me pergunto como esse novo estilo de vida está errado e caminha para uma desumanização bizarra da sociedade, onde o lugar físico passa a ser apenas um plano de fundo inútil que poderia ser substituído por qualquer outro e, mesmo assim, ninguém perceberia. Talvez, apenas, se o barulho dos carros cessasse, o ar se tornasse algo não causador de câncer e o céu, este salpicado de estrelas como o rosto da pessoa mais sardenta do mundo.
Ainda dá tempo de mudar tudo isso.
Está disposto a isso?

14 de novembro de 2015

Onde estamos sempre errando?

É difícil pensar em escrever algo divertido, interessante ou ao menos legal e leve quando a sua mente só decodifica neurotransmissores responsáveis por palavras pesadas, tristes e angustiantes.
É ainda mais difícil focar em alguma coisa que não seja o lugar onde minha mente está agora: do outro lado do oceano.
Eu contei aqui tudo sobre o meu intercâmbio. Tudo sobre o mês em que morei em Paris. Mostrei minha admiração e paixão pela cidade, pela cultura francesa, pelo idioma e por cada simples detalhe que deixam marcas na sua pele para sempre.
No começo do ano, um choque. 
Agora, outro.
Eu não consigo deixar de pensar que o 11th arrondissement foi a minha casa por um mês, que eu conheço cada rua e avenida daquele bairro e que hoje, ele foi virado ao avesso. 
Eu não consigo deixar de pensar nos meus amigos parisienses. Muitos deles já deixaram claro em redes sociais que estão bem, mas não foram todos. E aqueles cujo contato eu perdi? Um arrepio percorre o meu braço. E os funcionários da residência onde morei? Os cozinheiros, faxineiros, recepcionistas? 
Eu não sei.
Mal consigo pensar em palavras para continuar esse texto.
A verdade que mais ata nós em minha garganta é que essa não chega nem perto de ser a ponta do iceberg. Atentados acontecem todos os dias, em todos os lugares. Dizimam vidas, sonhos, culturas e lares. Lares, sim, porque uma cidade não é apenas a sua residência. Ela é o seu lar. Você cria laços com ela. A conhece. Ela te conhece também. E no fim, mesmo que em uma relação de amor e ódio, você se sente parte dela. Porque ela é sua. 
E então, quando eu vejo uma partezinha pequenininha do que foi o meu lar de pernas para o ar, com sirenes de emergência tocando, corpos cobertos sobre as calçadas e a incerteza do que vai resultar isso tudo, uma outra partezinha do meu coração despedaça. 
E é então que, finalmente, eu não quero imaginar a vida de tantos e tantos que, em meio a guerras civis, seja na África ou no Oriente Médio, assistem seus lares se reduzirem a destroços. Lembro da Síria, dos refugiados com quem cruzei outro dia, que foram forçados a arrancar raízes porque um prédio foi derrubado e levou consigo todas as árvores ao redor. 
Lembro das cidades nigerianas tomadas pelo Boko Haram. Do estado de alerta com o qual vivem os moradores de Israel e da Palestina. Dos somalianos que vivem em um país sem governo. Dos confrontos entre Rússia e Ucrânia. Dos curdos. 
Alguns lutando para conseguir seus lares, outros segurando as lágrimas enquanto o céu vira asfalto e as mãos estão atadas. 
É assustador. Os jornais são. As aulas de geopolítica também. Mas, mais assustador do que isso tudo, é assustador perceber que tudo sempre foi assim. Baseando-se em egoísmos, vaidades, metafísica, rumores e mentiras, o ser humano sempre conseguiu mudar o azul dos oceanos para o mais vibrante tom de vermelho. 
Onde sempre erramos? Onde estamos sempre errando? O quão difícil é enxergar o próximo como um ser humano assim como você?
Eu não sei.
E nem quero chegar a algum lugar com esse texto.
Foi mais um desabafo, um lugar para deixar minhas lágrimas e esse terrível sentimento de impotência. Algumas palavras para registrar o quão angustiante é ver um lugar do qual eu sempre lembrarei com o mais doce dos sabores da nostalgia vivendo algumas horas de caos. Que não vão desaparecer.
Elas nunca desaparecem.